Sempre pensei trabalhar algum tempo fora do país... Sempre me imaginei a fazer vida de circo: de um lado para o outro a assentar por algum tempo e levantar acampamento quando me sentisse cansada...
Até hoje, a minha vida profissional ainda curta já conta com vários locais de trabalho porque a certa altura acho que o sítio onde estou já não constitui um desafio tão grande que me faça ficar... Detesto sentir-me confortável, detesto chegar à conclusão que a maioria das situações que me aparecem já surgiram antes e não são uma novidade...
Quando fui para a urgência acreditava que ía ficar por uns 10 anos para realmente estar à vontade, e daí ter pensado que era na urgência que ía fazer a minha vida profissional... :) Neste momento sinto esse desafio constante, todos os dias surge algo de novo, todos os dias tenho desafios diferentes, todos os dias lido com doentes diferentes (bom, uns mais que outros...)... Mas descobri dois problemas:
1 - Lidar com as famílias em stress... Poucas famílias enviam familiares e ficam em casa à espera... Menos famílias ainda enviam os familiares e ficam descansadas porque confiam nos profissionais que estão a trabalhar... A grande generalidade fica à porta ou entra para visitas rápidas e está num stress gigantesco com o qual é difícil lidar... Sendo que eu compreendo profundamente o stress - basta imaginar-me a ir com a minha mãe a uma qualquer urgência do país que não a minha para pensar que ía tentar de tudo para a acompanhar - tenho enorme dificuldade em explicar as coisas de forma a ser entendida... Ou as pessoas têm enorme dificuldade em entender-me... E, uma vez mais, eu até compreendo, porque se fosse comigo era exactamente igual... O problema é que no papel de profissional eu não posso ficar a chorar com aquele familiar, tenho que vestir a minha capa profissional e falar de forma profissional, o que quer que isso seja... Tenho que dizer que "o seu marido acabou de morrer" como se estivesse a dizer que ele foi fazer um Rx, tenho que informar que a situação é muito grave tentando transmitir alguma empatia, mas da forma mais profissional possível, por muito que me custe pensar que se fosse eu do outro lado iria ficar desesperada... E não sei resolver isto, não sei lidar com isto...
2 - Tenho um amigo (na verdade é quase como um filho, LOLOLOL) na Guiné numa missão da AMI. No final do meu curso fui também seleccionada para ir 2 meses para Cabo Verde mas no final acobardei-me e preferi ir para o Hospital - onde tinha uma hipótese de começar a carreira, porque se fosse com a AMI quem sabe quando arranjaria emprego a sério??? Mas agora...
O que me imagino a fazer no futuro? Seguramente qualquer coisa muito fora dos hospitais tradicinais... Imagino-me na área pré-hospitalar (onde não existe carreira e a breve trecho me parece que deixarão de existir enfermeiros...), imagino-me em missões de emergência para trabalhar com urgências/trauma que me desafia constantemente, imagino-me alguns meses com comunidades perdidas no mundo a fazer educação para a saúde... Mas uma vez mais lembro-me que destas vidas não faz parte uma vida estável (estou a ficar velha, não estou? eu sei que é isso que estão a pensar)... E por estável pretendo dizer que se sair agora do contrato a tempo indeterminado para ir para a AMI, para a Cruz Vermelha (da qual faço parte a pensar um pouco nesse futuro) passo a não saber se estarei a trabalhar no próximo mês, passo a deixar de pensar em comprar a minha casinha e organizar as minhas coisinhas, passo a deixar de vez de pensar em encontrar alguém para compartilhar o futuro (sendo que se não fosse enfermeira há muito tinha deixado de pensar nisso, mas hoje acho que morrer sozinha é triste demais...)... Claro que sou muito nova e as oportunidades surgem para se aproveitar...
Tudo isto para dizer que neste momento muita coisa me faz pensar no futuro... Muita coisa me faz acreditar que tudo há-de mudar... Ao mesmo tempo, muita coisa me faz desconfiar que quando surgir a oportunidade eu vou recusar por qualquer motivo que, um dia mais tarde, me fará pensar "porque é que não fui????"... E não me quero arrepender do que deixei de fazer....
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